quarta-feira, 4 de maio de 2016
Título original: A Volta de Ubaldo, o Paranoico: Uma antologia histórica 
Autor: Henfil
Editora: Geração
Ano: 1994
Comprar: Nos seguintes sites: Amazon, Americanas, Submarino, Livraria Saraiva, Livraria Cultura e Livraria Folha


Resenha:

Sou fã incondicional do Henfil, acredito que ele foi o maior gênio criativo que nasceu neste país, que infelizmente não varioliza nada e ninguém. Para quem não sabe Henfil era mineiro e morreu com apenas 43 anos em decorrência de uma transfusão de sangue onde contraiu o vírus da AIDS (tudo devido sua hemofilia). Antes desta tragédia, Henfil foi um dos maiores cartunistas e quadrinista do Brasil, além é claro de ser um excelente jornalista e escritor.

Para as pessoas, sem memória, que pedem a volta dos militares nas manifestações, as mesmas deveriam observar toda a obra do Henfil para ter uma ideia de como aquele período representou para nossa população e para a liberdade individual e coletiva. A ditadura militar foi um momento horrível de nossa história no século passado e Henfil ficou marcado por sua atuação nos movimentos sociais e políticos. Sim, foi um homem que passou a vida toda lutando e defendendo o fim do regime ditatorial.

O que dói é perceber que toda as pessoas que lutaram e morreram para por fim a ditadura militar, hoje tem suas memórias desrespeitada por um bando de ignorante, sem cultura politica e social. Sem mencionar a traição de alguns, que diziam lutar pela igualdade, para o bem comum, e hoje são os corruptos da esquerda brasileira. Isso só foi uma breve noção de quem foi Henfil, ainda pretendo ler sua biografia para compreender esse gênio.

“A Volta de Ubaldo, o paranoico: Uma antologia histórica”, é o medo do personagem principal e de muitos leitores, na época, do retorno do regime militar, um regime de exclusão, onde os direitos civis eram descartados como se nenhum ser tivesse direto a nada, imagine essa garotada de hoje enfrentando os militares? O Ubaldo temia muito mais que tudo a famosa “Abertura” (fim do regime e início da liberdade política) fosse um armadilha do regime, por isso toda a paranoia do personagem.

É obvio que na maioria das vezes o texto pode estar datado, mas é de suma importância ter um um olhar sobre Ubaldo e analisar aquele período com muita atenção, para que não voltemos 40 anos atrás, pois o personagem foi criado em 1975.

RECOMENDADÍSSIMO!!!!



Contra Capa:


“Morro, mas meu desenho fica”
Henfil



Sinopse:

Paranoia
necessária

Ubaldo, o Paranoico, esta fantástica criação do grande Henfil, é o retrato tragicômico de uma era de experiências amargas, que um dia fomos obrigados a viver e devemos renegar com todas as forças, sempre.

É importante refletir sobre este personagem. A democracia ainda está se consolidando no Brasil e ninguém quer a volta do autoritarismo e os desvios que ele resultam: o desrespeito aos direitos humanos, as prisões arbitrárias, a tortura, a eliminação física dos adversários. (*Este paragrafo te lembra o quê? Situações que nos foram relatados pelos noticiários de Tv, o caso Amarildo ou aquela mãe que foi arrastada pelo o carro da policia numa favela no Rio de Janeiro. Gente, isso porque estamos em 2016 e vivemos numa democracia, segundo consta vivemos num estado de liberdade de direitos e deveres. Se isso acontece num regime democrático, imagine se voltarmos regime militar? Povo de Deus, pense, analise e reflita!!!) 

Neste tempo de mudança em nosso país, é preciso lembrar que a prática de tortura e do assassinato de adversários não é ou foi hábito apenas da CIA ou dos militares golpistas latinos americanos ou asiáticos. A barbárie, infelizmente, é um traço cultural da humanidade desde que o homem organizou-se em Estado e passou a se enfrentar por riquezas.

Os hunos e os maias, os romanos e os romenos, os vikings e os normandos, os mouros e os cruzados, os mongóis e os afegãos, os portugueses e os espanhóis, os índios, os nazistas e os stalinistas, entre outros representantes de nossa espécie, torturavam e matavam seus adversários com requintes de violência, do escalpelamento ao empalamento, do garrote vil à fogueira, da cruz à câmara de gás, do tormento chinês pela água ao choque elétrico. 

Ubaldo, o Paranoico, é a vítima arquetípica dessa barbárie. Ele tem um medo ancestral de ser preso. De desaparecer misteriosamente. De ser torturado. De ser morto. O humor negro que sai desses traços, apesar de irremediavelmente datado, em algumas das cenas, é vital para que possamos refletir sobre nosso passado, nosso presente e nossa possibilidade de futuro.

Henfil - que também era paranoico, além de hemofílico - morreu contaminado pela Aids, contraída em transfusão de sangue. Era um intelectual de esquerda, eleitor e militante fanático do PT. (*Imagino como Henfil reagiria com a transformação do PT hoje.) Embora tivesse traços de ternura, quem o conheceu de perto sabe o quanto ele podia ser também injusto, cruel e autoritário. (*Querido, ninguém é perfeito, quando pisam nos meus dedos também sei ser extremamente cruel.)            

Foi, no entanto, um grande criador de nossa cultura. O criador do Fradim, da Graúna e de Ubaldo merece ser lembrado não só pela qualidade universalmente premiada de seu traço, mas também pelo que representa de alerta, de advertência. É por isso que a Geração Editorial vem publicando a coleção completa de seus personagens.

O ser humano é grandioso e mesquinho, quase sempre contraditório. Pode ser, como Cristo ou Marx, anunciador de grandes ideias transformadoras. Em nome delas, pode-se condenar outros seres humanos à morte pela espada ou pela fogueira. Pelo exílio na Sibéria ou pela cremação nos fornos. Pela tortura nos porões do Doi-Codi ou pelo lançamento de corpos no mar.

Vivemos tempos difíceis. É importante que nossa paranoia esteja alerta no ponto certo. Aquele ponto que nos leva a lutar sempre que necessário, pela preservação, pelo menos, de nosso direito de continuar vivos enquanto discordamos daqueles que, pela usurpação, mas também pelo voto, julgam-se no direito de nos eliminar.

Luiz Fernando Emediato
Editor   



Recado:

Ivan Cosenza de Souza

Ubaldo, o paranoico está de volta. E a nossa paranoia, voltou ou continua a mesma?

Neste livro você verá a volta de um personagem excessivamente paranoico, que tem medo de falar, de cantar, de sair na rua, de rir, de discutir. Qualquer coisa que fizesse, implicaria em risco de vida. Meu pai conta isso com seu humor de uma maneira exagerada e totalmente irreal.

Mas será mesmo exagero? Quantas milhares de pessoas foram presas, torturadas, mortas ou simplesmente desapareceram, naqueles tempos? Quantos amigos do tio do vizinho de um irmão de um estudante que não participava da UNE foram presos sem entender porque estavam sendo acusados de serem comunistas ou algo assim? Quantos foram para a cadeia por falar “sou contra”? E quantos morreram por escrever isto?

É, parecia exagerado, mas na verdade o humor que meu pai põe nestes desenhos não faz mais do que amaciar os fatos acontecidos aqui no Brasil, há muito pouco tempo.

Este personagem foi criado em parceria com um grande amigo dele chamado Tárik de Souza, que aceitou nosso convite para fazer a abertura deste livro. Divirtam-se com a leitura, mas não riam muito. Tomem muito cuidado!!!

Rio de Janeiro, dezembro de 1993



Apresentação:

O Parto de Ubaldo,
o Paranoico que Virou Legião

Tarik de Souza

“ O Brasil é a prova de sanidade que o paranoico pode esfregar na cara de seu psicanalista. O paranoico vê um sentido por trás de cada fato. E o sentido nunca é bom, O conjunto de faros e sentidos o persegue, o oprime. Aqui, nenhum fato é isolado, nada é desprovido de mau sentido, toda teoria conspiratória é verdadeira”.

Escritas pelo arguto amigo Arthur Dapieve em sua coluna em O Globo, de 9 de outubro de 1993, estas observações poderiam servir de epígrafe à história do personagem Ubaldo, o paranoico, que Henfil e eu bolamos num fim de semana macabro de 1975. Se o artigo de Dapieve se refere à cadeia de cumplicidade que alinhava as recentes chacinas cariocas ao tráfico de drogas, PC Farias, mais a hecatombe política de F. Collor, o nosso Ubaldo nasceu num clima ainda mais intrigantemente paranoico, porque encoberto pela névoa densa da ditadura.

Tão espessa era a bruma que toda uma geração - a minha e do Henfil - imaginou que era só remover o entulho autoritário que apareceria um país limpim (como diria o mano em seu dialeto mineiro) novo em folha. Pronto para fazer vicejar a tenra plantinha da democracia, de que falava o velho socialista Otávio Mangabeira. Mas qual o quê, uai. Cadê a plantinha, se a cadeia só é feita pra gente pobre?!

Mesmo que o tempo continue parado neste paraíso impune, voltemos ao pretérito ainda não preterido. Fiquei amigo e depois irmão do Henfil (com licença do Chico Mário, do Bentinho e dos outros e outras verdadeiros da grande família Souza) na época áurea do Pasquim. Nos conhecemos num festival de música (ambos jurados; mais ainda não de morte) em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santos.

Descobrimos afinidades sonoras que logo passaram para a política  e a amizade. Tinha colaborado com algumas edições do chamado período da “gripe” do Pasquim, quando boa parte da redação foi em cana e passei, a convite do Henfil e do Jaguar, a escrever com regularidade num jornal onde eu praticamente só tinha ídolos. Henfil era um deles, até por meu interesse por quadrinhos. Seu desenho de sínteses rápida era a modernidade. E - não apenas a charge - o quadrinho brasileiro deu um salto em altura com o aparecimento de seu trabalho.

Bão, como ele diria, chega de confétis e vamos aos fatos. Até porque quem o conheceu sabe que a convivência com Henfil nunca era pacífica. Ele vivia provocando os amigos naquele clima de guerra pessoal que travava contra a hemofilia. Gostava de cutucar as feridas próximas para ver se movia os comodismos. Ambos nos acusávamos de paranoicos - e não faltavam razões de todas as ordens para que estivéssemos certos. Aos que viverem depois de nós, lembrem-se ao menos do tempo sombrio com que nos defrontamos, diria o velho Bertolt Brecht. E o ambiente de perseguição política facilitava a trama de receios pessoais e transferíveis. Até que resolvemos transformar num personagem de papel e traço essas inquietações comuns. Naquele tempo, os arrastões eram feitos pelos militares, que já manifestavam preferencia tétrica por finais de semana. Muitos amigos desapareceram assim.

Geralmente algum presságio nos avisava deste clima e - quando podíamos - caíamos fora antes. Lembro-me que tomamos a rota de Arraial do Cabo, na região dos Lagos. Peguei minha amigável garrafinha de uísque (o Henfil não bebia por causa da saúde) e nos mandamos com família & tralha, não sem antes passar na casa de um amigo em Laranjeiras. Soubemos que seu nome tinha sido citado numa sessão de interrogatório sob tortura. Era bom que ele sumisse antes que fosse sumido. O personagem paranoico, que já estava esqueletado, apareceu de corpo inteiro no papo, ainda durante a viagem. E, numa curva da estrada que não era de Santos, sei lá porque, achei que ele deveria chamar-se Ubaldo.

Fim de semana na praia, personagem pronto até com algumas textos que imaginei para situações iniciais desenhadas por Henfil, voltamos ao Rio na segunda-feira, pela amanhã. Paramos numa banca para comprar um jornal, que, mesmo sob censura, trazia a notícia devastadora. A paranoia do nosso Ubaldo tinha carimbado seu fundamento real, como no texto recente de Dapieve. Preso na sexta à noite, morrera sob tortura, em São Paulo, o nosso amigo jornalista Vlado Herzog. A parceria individualista de dois atormentados virava legião.     



* são colações pertinentes, pois mostra que o tempo parece não passar...   

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