sábado, 22 de agosto de 2015
Título: A Volta do Fradim: Uma Antologia Histórica
Autor: Henfil
Seleção de Nilson 
Editora: Geração
Ano: 1993
Comprar: Nos seguintes sites: Amazon, Americanas, Submarino, Livraria Saraiva, Livraria Cultura e Livraria Folha 


Resenha:

Há coisas que acontecem no Brasil que não consigo entender. Por exemplo, o Henfil que foi sem sombra de dúvidas um gênio na sua arte. Enquanto em outro país, este artista seria mega ovacionado, teríamos livros, revistas e filmes sobre sua obra é vida. Aqui no seu país é completamente esquecido. Sem mencionar que em outro país provavelmente não teria morrido em consequências de ser hemofílico (Henfil e seu irmão Betinho contrariam AIDS em uma transfusão de sangue)

Mas aqui neste país de Terceiro Mundo (não me venha dizer o contrário, ainda temos sérios problemas e o governo do PT máscara nossa real situação), Henfil é praticamente desconhecido pelas novas gerações. Tive a sorte de sempre ser ratinha de bibliotecas e sebos, e da editora Geração relançar na década de 90, alguns livros do autor, foi assim pude conhecer o cartunista em primeiro lugar. E anos depois os livros "reportagens" como "Henfil na China" e "Diário de um cucaracha", não foi um cartunista que encontrei nestes livros e sim um jornalista, um repórter e principalmente um investigador.

O que quero dizer com tudo isto, é que não podemos classificá-lo apenas como um genial cartunista, mas, um homem que sabia como ninguém observar o mundo e as pessoas a sua volta.

"A Volta do Fradim" são sem dúvida as melhores tirinhas do Henfil. Este livro apresenta os "Dois Fradinhos" que são duas personalidades em conflito constante. O frade Cumprido, como dizem por aí: representa o que é careta, carola e conservador. Já o Baixinho é revolucionário, anarquista e utópico.

Ao ler às tirinhas você vai conseguir observar o período que elas se inserem, mas também vai concluir que pouca coisa mudou no Brasil, infelizmente. Tenho pra mim que Henfil estaria muito decepcionado com a nossa política atual.

Deixando de lado a política, você vai se esbaldar com essas tirinhas espirituosas e com as críticas descaradas, mas tudo isso com muito bom-humor!

RECOMENDADÍSSIMO!!!



Contra Capa:

"Morro, mas meu desenho fica"
Henfil




Sinopse:

A vida às vezes nos prega peças amargas. Henfil já estava condenado à morte por causa da Aids - que contraiu devido a uma transfusão de sangue - quando nós o convidamos para trabalhar conosco no Caderno 2 do Estado de S. Paulo, do qual eu era editor, em 1986. Henfil era o mais importante cartunista e humorista brasileiro da época, e ainda estava sendo muito patrulhado, pela direita e pela esquerda, por não ter aderido ao complô que elegeu Tancredo Neves para presidência da República.

Tínhamos vivido na mesma triste e pobre cidade de Minas - Bocaiúva, no miserável Vale do Jequitinhonha - e trabalhado no mesmo jornal de resistência à ditadura militar - o velho Pasquim - mas, por incrível que possa parecer, não nos conhecíamos pessoalmente. Tínhamos uma grande antipatia um pelo outro, embora eu admirasse o trabalho dele e fôssemos muito parecidos, no nosso radicalismo e na nossa cruel intolerância em relação aos nossos adversários. Uma luta política estéril é completamente sem sentido nos tinha separado.

Éramos - tanto ele quanto eu - extremistas radicais e apaixonados: defendíamos com unhas e dentes nossas frágeis verdades. Mas aprendemos a gostar um do outro no convívio que se estabeleceu desde então, no Caderno 2. Livre outra vez para criar, Henfil de certa forma ressuscitava para o público. Creio que ele nunca teve tanta liberdade. Acho que foi feliz.

Ele já estava condenado à morte quando começou trabalhar conosco, mas era surpreendente sua energia, sua vontade de transformar o mundo. Estava já muito abatido pela doença, mas parecia mais humano, mais doce, mais tolerante com as pessoas. Henfil morreu sem perdoas aqueles que traíram o movimento das Diretas Já, mas já não era o intelectual agressivo e cruel que chegará a "matar" a cantora Elis Regina só porque ela havia cantado na abertura da Olimpíadas do Exército, durante a ditadura.

No final da vida, ironia do destino, foram jornais conservadores - O Estadão e  O Globo - que garantiram emprego e sobrevivência para esse grande artista. Quando já não tinha forças para o trabalho diário, pediu - e obteve - permissão para publicar as antigas historias da Graúna, de Zeferino e do Bode Orelana na página de quadrinhos. A história da incrível Graúna (que Geração Editora também vai publicar) saiu no Estadão até o dia da morte de Henfil. Quem acompanhou pôde perceber uma trágica realidade: o Brasil da Graúna era o Brasil de Médici, Geisel e Figueiredo - mas era também o Brasil de José Sarney, assim como poderia ser o de Fernando Collor.

Ai de nós: quem ler estas histórias do Fradim, velhas de mais de 20 anos, vai descobrir que ainda retratam nosso pobre país. Um país que assassina a lucidez e a independência e premia o corrupto, o incompetente, o que se curva a se vende. O país em que os grandes ladrões não são punidos.

Reler, ou, para as novas gerações, descobrir Henfil e seus personagens é um exercício de cidadania. Este A Volta do Fradim é o primeiro volume de uma série que Geração Editora pretende publicar, para resgatar a obra eterna desse grande brasileiro que foi Henfil. Ele foi exemplo de dignidade, coerência e força humana. Ele foi - na pureza dura e paradoxalmente firme de seu traço frágil, mas cortante - um criador. Um patriota. Um lutador.
Luiz Fernando Emediato

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